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Máskara – Núcleo Transdisciplinar de Pesquisas em Teatro, Dança e Performance(GO)

A noite dos assassinos

Teatro, 120 min., 16 anos

Sobre o espetáculo

“Quando os deuses permanecem em silêncio, as pessoas gritam” José Triana.

O TEXTO:
Escrito em 1965 pelo dramaturgo cubano exilado em Paris Jose Triana, Noche de Los Assessinos recebeu o prestigioso Casa das Américas de 1966 e depois outros prêmios na Colômbia, Argentina e México.

Reconhecido em todo mundo como um dos mais importantes textos latino- americanos, inúmeras montagens já foram feitas no Brasil. Em 1969, no Rio de Janeiro, estreava este texto os reconhecidos atores Leyla Ribeiro, Norma Benguel e Rubens Corrêa, com direção de Eros Martins e cenografia de Hélio Eichbauer, umas das grandes criações que inauguravam o Teatro Ipanema.

Montagem premiadíssima, recebeu o Prêmio Molière e muitos outros.

Em São Paulo, em 1979, dez anos depois outra montagem premiada, direção de Roberto Vignati, cenografia e figurinos de Ednaldo Freire, no elenco artistas de primeira, Calixto de Inhamuns, Maria do Carmo Soares e Rosi Campos, um dos sucessos marcantes do inesquecível Grupo de Teatro Mambembe.

Este texto se constitui no cruzamento entre o teatro improvisacional e o teatro clássico. Um teatro que mostra que tudo muda, tudo se move, tudo se transforma, um canto necessário no país em que hoje vivemos. Nos anos 60 e 70 uma solidariedade nos unia, o sonho de uma latinoamérica que deveria ser una e livre, tempos de ditadura no Brasil, e ditadura no Chile, a partir do golpe militar de 1973. O texto afirma reiteradamente “a cadeira não é a cadeira, o quarto não é o quarto, o quarto é o banheiro”. Era este o país em que vivíamos. Neste texto três irmãos descem ao porão de casa, cotidianamente, para vivenciar o assassinato dos pais. Verdade ou representação? Este texto cubano foi muitas vezes lido como uma homenagem e/ou uma crítica ao socialismo cubano. Uma série de fatos transformará o autor e sua obra num apátrida dentro de sua Cuba, o que o levará a buscar o exílio em 1980, mudando- se para Paris.

A história remonta a 1950, em Cuba, antes da Revolução de 1959, quando três irmãos, Cuca, Beba e Lalo, já adultos, se encontram no porão de sua casa para encenar o assassinato de seus próprios pais. Esta encenação representada é uma fantasia, um ensaio, ou uma re-presentação do que já foi feito? Neste sério jogo de faz-de-conta, mortal e simbólico, não há amor entre os pais e as crianças, revive-se apenas o recalcado. Arte ou realidade? Embora haja apenas três atores em cena, eles atuam um enorme repertório de personagens ausentes/presentes, incluindo seus pais.

Uma primeira pergunta aparece para a plateia desde o primeiro momento, é uma representação ou um planejamento do que está para acontecer? Os cáusticos irmãos criticam a todos, inclusive a si mesmo.

O AUTOR
José Triana afirma Sempre fui e serei um exilado.

A dramaturgia de Triana é uma dramaturgia da memória, onde ele afirma que a memória é um fenômeno sem rasuras ou costuras, onde o “único que podemos ter consciência é de sua fragmentação. Trabalhar com a memória é trabalhar em um terreno pantanoso”.

As obras de Jose Triana, nascido em 1931, em Camaguey, foram traduzidas ao inglês, francês, italiano, português, alemão, húngaro, polaco, sueco, holandês, hebreu e catalão. Seu reconhecimento se deve inicialmente a excursão que a montagem original fez na Europa, no Festival de Avignon, depois em Londres e na Itália e certamente estava imerso no fascínio que a Revolução Cubana carregava a todo o mundo.

Dramaturgo, romancista, contista, poeta, José Triana é uma figura extraordinária da cena cubana e referência indiscutível da história do teatro latino-americano.

Em uma entrevista marcante de 12 de maio de 1997, a Christilla Vasserot, Triana apresenta os personagens de seu teatro como seres humanos que “por uma ou outra razão sempre estão na margem, nos limites, nunca satisfeitos com o que fizeram ou fazem. Estão em uma margem estranha dentro da sociedade”, definição que também poderia ser aplicada ao próprio Triana, que escolheu o exílio na França em 1980.

José Triana entrecruza o sensualismo e o desejo mítico do cubano. Triana destaca que pertence ao povo cubano a atitude de cada um inventar uma história, às vezes muito delirante, para construir caminhos interpretativos, assim a mitomania dos cubanos apresenta e representa a loucura do mito. Um trata de mitificar o outro e a si mesmo.

José Triana destaca que as pessoas inicialmente interpretaram A Noite dos Assassinos como uma obra nociva, um ataque a ideia revolucionária, mas o que ele abordava era o ato revolucionário de transformação que deve se dirigir fundamentalmente ao indivíduo, pois “há que se fazer uma reflexão interna, profunda, para se lograr o verdadeiro ato revolucionário”. Cáustico, afirma em seu exílio “O castrismo se fundamenta na concepção pequeno burguesa da vida, e eu estava dando-lhe, com esta obra, um golpe profundo, dinamitando esta estrutura”. Meu teatro é uma metáfora, uma aproximação.

O que está em cena na Noite de Triana é o tocar em zonas que nunca haviam antes sido tratadas, como o desterro, a igualdade de condições. E, em Cuba, isto não podia ser dito, o exilado era um ser negado, não existia, havia que se declarar que tudo era divino e maravilhoso. Em 1968 foi constantemente agredido em Cuba, conta, se “fizeram manifestos contra mim, nas assembleias, nas ruas, nos centros de trabalho” por sua ligação com um teatro que criticava os “avanços da Revolução Cubana”. Tempos em que o falar criticamente era apontado como ser contrário a Revolução Cubana. Críticas não eram admitidas.

Um tempo em que muitos intelectuais eram presos e tinham que desdizer o que não disseram, e dizer o que não diziam, um disse que não disse, um não dizer do que se disse, desdizendo. Um tempo onde as cadeiras tinham que ser as mesas, a sala a cozinha. Isto levará Jose Triana a fugir de Cuba e a viver permanentemente em Paris.

O Diretor
Robson Corrêa de Camargo
Para mim um texto especial, foi meu espetáculo de formatura do curso de direção na Escola de Comunicações e Artes da USP, em 1975. Mesmo ano da morte encenada e real de Vladimir Herzog, professor da ECA/USP, nos porões da ditadura. Voltar a um velho clássico é um prazer e um sofrimento, quando muitos se acovardam e evitam levantar as velas do antigo e majestoso teatro.

Uma reflexão necessária quando completo 50 anos de constantes práticas teatrais, um prazer dado a poucos.

Os Atores
Gabriella Vitorino
Contracenando ao lado de duas pessoas incríveis que já foram meus professores, quando me veio o convite, confesso que o medo tomou conta de mim. Era exatamente o tipo de texto e personagem que desejei por tantos anos. Mas ignorando todos os sintomas de desespero, entrei com sede de conhecimento e muita ansiedade em ser aprendiz. O processo me colocou face a face com minhas maiores dificuldades, me pôs a prova, fez duvidar de antigas convicções e travar combates contra mim mesma. Proporcionou uma liberdade de criação que nunca experimentei antes, o que para alguém que estava acostumada a ter passos cronometrados, sair da zona de conforto foi assustador e maravilhoso ao mesmo tempo. Assim desabrochei e das dificuldades encontradas, algumas consegui superar, outras, volta e meia as encontro na esquina. A todo o aprendizado que tive, sou imensamente grata. Aqui questionei e repensei, para no fim, mais uma vez reafirmar meu lugar na arte, um não lugar.

Ilmara Damasceno
A noite… traz muitas emoções e reflexões. A dramaturgia de alguma forma acerta as feridas comuns a nós, tem uma densidade presente como no próprio viver e nas lutas que travamos para sobreviver em meio aos conflitos existenciais, desejos sucumbidos e sonhos etéreos. Enxergar a humanidade presente nos personagens, ser sensível ao drama, perspicaz ao gesto, é o meu desafio constante com a obra.

Ronei Vieira
Em 2013 tive o primeiro contato com o texto “A Noite dos Assassinos” para uma possível montagem. Desde a primeira leitura o texto me assustava e me fascinava, instigando um desejo maluco de querer me enfiar no porão dessa casa e viver esse Lalo, que também sou eu. A montagem foi um processo intenso de mergulho íntimo e olhar aguçado para a sociedade que vivemos, como também na nossa história pessoal e coletiva. Memórias que são acessadas, reflexões que são instigadas, sentimentos que são acionados… e desse processo íntimo expomos humanidades…

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